Peyton Manning: 18 Anos de Número 18 peyton-manning-denver-broncos-military-appreciation-day - Peyton Manning, Denver Broncos (U.S. Air National Guard, por Capt. Darin Overstreet /RELEASED) Full view

Peyton Manning: 18 Anos de Número 18

Dia 7 de março de 2016: 18 anos após entrar na NFL, Peyton Manning anuncia a sua aposentadoria. Um discurso típico do número 18, evidenciando seu amor pelo futebol americano, admiração e respeito pelos seus companheiros e rivais, aquela pitada de humor, humildade e uma dose enorme de emoção, de um atleta que aproveitou cada segundo do esporte e viveu intensamente o que mais amava fazer: jogar futebol americano.

Peyton Manning atuando pelo Indianapolis Colts (Mike Morbeck)
Peyton Manning atuando pelo Indianapolis Colts (Mike Morbeck)

Peyton Manning era brilhante em campo; o jogador mais inteligente a pisar em um gramado da NFL. A forma que ele conduzia o ataque como um maestro, fazendo ajustes antes do snap conforme dissecava defesas adversárias, era algo fora do comum. Quando liderava o seu ataque no no-huddle, era um pesadelo enorme para qualquer defesa. Nesse aspecto, Peyton revolucionou o jogo: nenhum QB transformava uma partida com tanta inteligência como ele. Era bonito ver a forma que ele executava cada jogada, movendo cada jogador do ataque como uma peça de xadrez e realizando um passe perfeito para um xeque-mate no adversário. Entre todos os QBs da história que já tivemos a chance de testemunhar, podemos dizer que vimos braços mais poderosos que o de Peyton. Já vimos quarterbacks mais atléticos e alguns até mais precisos. Mas mais inteligente, que faça as leituras que ele fazia? Eu duvido. Neste quesito, Peyton era ímpar.

Ímpar também era a forma que ele se dedicava ao esporte. Toda essa habilidade que ele havia adquirido não veio do nada. Poucos foram e são os atletas que tenham trabalhado mais do que Peyton para aprimorar a sua técnica e visão. Inúmeros jogadores da liga admiram o número 18 e destacam exatamente essa qualidade dele, de praticar e estudar incansavelmente. LaDainian Tomlinson, excepcional runningback que fez história nos Chargers, conta como Peyton, após ambos gravarem um comercial, o chamou para lançar umas bolas para continuar aperfeiçoando o seu jogo.

Inquestionavelmente, Peyton Manning despertava o melhor de cada jogador em campo. Desde Marvin Harrison, Reggie Wayne e Demaryius Thomas, encarregados de capturar os passes que resultaram em 539 touchdowns, passando por Edgerrin James para desempenhar o handoff perfeito que pudesse enganar defesas em play actions, até Jeff Saturday, seu fiel center enquanto jogava nos Colts. Mas, além disso, Peyton Manning exigia o melhor de seus adversários: ele fazia você pagar caro por cada erro que você cometesse na defesa. Um passo em falso do cornerback Ike Taylor do Pittsburgh Steelers foi o suficiente para que Manning lançasse um TD de mais de 80 jardas. No fim das contas, Peyton não foi importante somente para os seus companheiros de equipe: ele foi importante para o esporte, para o espetáculo.

Indianapolis Colts em huddle contra Jacksonville Jaguars (domínio público)
Indianapolis Colts em huddle contra Jacksonville Jaguars (domínio público)

Tamanha a importância que era a de Manning para o seu time que, na temporada que ele não estava apto a jogar, o time dos Colts entrou em total colapso. Quando Tom Brady se contundiu e o mediocre Matt Cassel assumiu o posto de QB titular, o sistema dos Patriots conseguiu manter o time competitivo. Quando Manning estava incapacitado de jogar, o sistema foi embora junto. Ele era o sistema.

Após a saída de Manning dos Colts, muitos questionaram se ele ainda era capaz de jogar em alto nível em Denver, seu novo lar. O respeito que ele já havia construído em Indianapolis era tão grande que Frank Tripucka, ex-QB dos Broncos, dono da aposentada camisa 18, permitiu que seu número fosse vestido por Manning. Sua contratação, aposta de um dos maiores QB da história da NFL, John Elway, mostrou que, sim, Peyton Manning não havia perdido a sua magia: nos seus quatro anos pelos Broncos, conseguiu chegar ao Super Bowl duas vezes, inclusive, por coincidência do destino, vencendo o Super Bowl em sua última temporada, tal qual Elway. Notavelmente, neste período, quebrou o recorde de Tom Brady de TDs lançados em uma única temporada: em 2013, Manning fez com que a bola oval chegasse à end zone adversária pelo ar 55 vezes.

Impossível também não considerar todos os recordes pessoais estabelecidos pelo “xerife”, o que pode, por que não, consagrá-lo como o melhor jogador de temporada regular de todos os tempos. Nem os números do eterno Brett Favre foram páreos para Manning. Algumas das dezenas de recordes da carreira de Manning incluem seus 539 passes para TD, as 71.940 jardas lançadas, 200 vitórias (incluindo partidas de pós-temporada) e 5 vezes prêmio de MVP da liga.

Peyton Manning, pelo Denver Broncos (Jeffrey Beall)
Peyton Manning, pelo Denver Broncos (Jeffrey Beall)

O que obviamente sempre foi o maior argumento para não considerá-lo como o maior jogador de todos os tempos (o GOAT, Greatest of All Time), nas sombras de Tom Brady e Joe Montana, foi sua incapacidade de não conquistar tantos anéis de vencedor do Super Bowl. Disputou quatro vezes a grande partida decisiva e saiu como vencedor em metade delas — sendo que em sua última atuação, no qual se sagrou campeão, estava claramente aquém do jogador que fora, com uma defesa brilhante levando o seu time ao título.

Tivesse ele conquistado seus títulos contra Saints e Seahawks, provavelmente a história seria outra e não haveria dúvidas de quem fosse o melhor. Como isso não ocorreu, seria justo chamá-lo de “amarelão”? Acredito que não. Não há dúvidas de que sua performance e rendimento em muitas partidas da pós-temporada foram longe do jogador genial que ele costumava ser, mas ele sempre estava lá; seu time sempre chegava longe. Principalmente em sua quase uma década e meia de Colts, a equipe se mantinha competitiva e temida, mesmo sem contar com uma defesa sólida. Talvez, nada mais justo que uma defesa espetacular carregasse o velho xerife ao auge em sua última partida.

Quando o assunto é decidir quem seria o maior jogador de todos os tempos, as opiniões são muito divergentes. Alguns mencionam Joe Montana, outros alegam ser Tom Brady. Outros nomes eventualmente são jogados na discussão. Não há uma resposta unânime e toda opinião deve ser respeitada. O verdadeiro pecado aqui seria não incluir o nome de Peyton Manning na conversa. Um tipo de jogador único, daquele que talvez não veremos mais. Considerando seu amor pelo futebol americano, é muito provável que ele continue envolvido no esporte. Mas saber que, ao ligar a TV no domingo, ele não estará mais em campo fazendo sua mágica, vai ser estranho e algo que todo fã de futebol americano sentirá saudades.

Obrigado, Peyton Manning. You’ve fought a good fight.

 

Escrito por marcphx

Designer do 11 Jardas e autor da Apostila 11 Jardas, eventualmente escrevo algumas coisas e tomo algumas decisões na equipe. Acompanho a NFL desde 2005 e sou torcedor não-fanático do Pittsburgh Steelers (lixo). Também faço música.